Ribeirinhos aguardam pagamento pela terra inundada por barragem

A Tarde, 27/06/2010

 

Centenas de representantes das famílias que foram obrigadas a deixar suas terras no final da década de 70 para dar lugar à Barragem de Sobradinho estão realizando reuniões para discutir o andamento do processo que abriram contra a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf). O último encontro aconteceu na semana passada no centro de Sobradinho( a 500Km de Salvador).

As famílias reivindicam o pagamento das terras de cada proprietário que, na época, recebeu apenas o valor pelas benfeitorias. Segundo o presidente da Associação Ribeirinha do Lago de Sobradinho, Genivaldo da Silva, desde setembro do ano passado, as 72 mil famílias envolvidas no processo, e que vivem nos municípios de Sobradinho, Casa Nova, Pilão Arcado, Sento Sé e Xique-Xique lutam para que esse direito seja conquistado. Genivaldo Silva explica que os advogados dependem de documentos que devem ser entregues a eles pela Chesf a fim de comparação com os que estão de posse dos ribeirinhos.

“Só depois disso os advogados poderão fazer os cálculos das terras de cada família”, afirma Genivaldo, e lembra que o presidente Lula, quando esteve na região para inauguração da primeira etapa do Projeto Salitre, em março deste ano, assegurou que os ribeirinhos receberiam o pagamento por suas terras.

“Naquela época, vivíamos uma ditadura, havia muito desconhecimento e ninguém para brigar por nossa causa. Deixamos nossas terras por valores mínimos e fomos jogados no meio do nada. Tivemos que viver pelo menos cinco anos ou de baixo de lona ou em casas de barro, até conseguir uma moradia descente”, conta o presidente da associação e agricultor, que saiu com a família da Ilha de Santana em 1974 e foi morar em povoados como Brejo de Fora e Algodão.

Promessa

 

Genivaldo Silva explica que, quando a desapropriação aconteceu, foi prometido que todas as famílias teriam casa e uma roça irrigada para trabalhar. “Mas isso não aconteceu e todas as famílias sofreram. Muitos, como eu, tiveram que sair daqui e tentar a vida em São Paulo, porque não havia mais trabalho na região”, completa.

Como ele, o agricultor Bartolomeu Gabino de Castro, de 69 anos, lembra com tristeza o que perdeu. “Todo mundo tinha sua terrinha para plantar e depois sobrou nada. Vi muita gente em depressão morrer de desgosto”, afirma. “Teve um senhor que tomou veneno e morreu dentro de sua terra para não ter de sair dela”, conta Genivaldo. A esperança, segundo eles, também é o reconhecimento “de uma injustiça cometida contra milhares de famílias que tinham suas terras e viviam tranquilas”. Em mãos de Isabela Moreira Rodrigues, de 55 anos, tem o documento de compra das benfeitorias da terra do sogro, já falecido, José Arcano Barbosa datado de 1974.

O valor do cheque pago à época era de Cr$ 2,5 mil por “três casas de taipa, plantação de mandioca, cercado, três caraibeiras” entre outras benfeitorias. Ela diz que sua família, composta de 22 pessoas, foi a primeira a deixar a área. “Nossas casas na Ilha de Cachoeira ficavam onde hoje está a eclusa do Lago de Sobradinho. Tudo se perdeu de lá para cá”, afirma.

CRISTINA LAURA
Juazeiro

 
Banner
Banner

ENQUETE

Como deve ser a propriedade de terra no Brasil?
 

Notícias relacionadas